Bem Vindos ao Feitos no Bosque
- Lucas Puttini

- 22 de mar.
- 3 min de leitura

Há um bom tempo, nosso projeto maior busca um nome para si. Queríamos uma forma direta de comunicar o todo que temos vivido e sonhado desde nossa mudança para essa nova casa, desde que esse bosque nos recebeu. Não viemos para cá empreender algo pensado, nem propriamente nos retirar do caos do mundo. Acho que demos nessa paragem guiados por uma intuição que se insinuava ainda bem dispersa. Uma voz sussurrava em outros idiomas, sugeria imagens e fios de alegrias que a gente muito mal saberia entrelaçar. Eram sonhos de uma realidade diferente, uma de contornos ainda muito vagos, que germinavam a partir da indignação e incredulidade com o mundo chamado de normal.
Um novo nome surgiu então por aqui, há pouco mais de um ano: Feitos no Bosque. É a nossa iniciativa-mãe, nossa criação emergente que vai lentamente existindo para que a gente a reconheça. Talvez seja um misto de marcenaria com jardim botânico, reserva particular, biblioteca, sítio de aposentadoria, livraria, residência artística, intercâmbio literário, agrofloresta, morada de escritores, bosque em regeneração, ponto de cultura, escola de fazeres e centro comunitário. E outras coisas também. Percebemos que essas categorias existentes são todas muito limitantes e apertadas para descrever uma realidade, se a gente tiver tempo de considerar as muitas perspectivas que fazem algo interessante. Vimos que a necessidade de ter “foco” para atingir “metas” nos limita a escolher as mesmas ruas sem saída. E ficamos à vontade para seguir sendo um pouco de tudo. Por hora, Feitos no Bosque é mais que tudo um convite.
O que eu vejo que tem nos guiado nesses momentos de reorientar a vida são práticas concretas. O trabalhar da madeira, para a minha grande surpresa, se enraizou e tem sido, mais que uma profissão, uma lente para apreender o todo. O corpo que trabalha de pé e vai dando forma a coisas pequenas, práticas e úteis para a nossa rotina, de repente parece que reparou no mundo natural pela primeira vez. Se deu conta de que respira e se nutre somente dos presentes das plantas. Sempre foi assim, mas faltava perceber com o corpo, carecia saber dessa forma simples e direta que o corpo sabe. O interesse pelos móveis caminhou para as ferramentas, as habilidades, a história dos artesãos, as madeiras, as árvores, a floresta, as sementes, abelhas, chuvas, solos, os povos todos que estiveram aqui por muito mais tempo que nós e souberam conviver com esse todo de modo a torná-lo mais rico e sadio.
No meu tempo na oficina, vejo a que ponto ainda respondo inconscientemente à programação moderna que nos impõe rapidez e frieza. Como ainda são entranhadas em mim as sensibilidades modernas que nos comparam às maquinas. Vejo como eu ainda sinto um grau de culpa se o fazer se torna simplesmente leve, feliz e desinteressado. Vejo que leva tempo mesmo pra gente se tornar criança. Nossa formação moderna é terrivelmente enviesada para realçar o indivíduo humano. Fico pensando que se a prática desses ofícios nos ajudar a ver o coletivo em tudo, terá sido de enorme valia.
Queremos cuidadosamente compartilhar esse espaço com amigos que tenham sensibilidades em comum. Queremos respeitosamente convidar colegas para residir conosco e ajudar a cultivar essas possibilidades. Fazermos comida juntos, trabalharmos a madeira, escrevermos nossas histórias. Despertarmos uns nos outros a apreciação pelo coletivo, pelo bem comum, a alegria muito concreta de fazer coisas boas pelos outros. Te convidamos a vir passar um tempo conosco aprendendo com o povo em pé a arte do conviver.




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